Repertorium

"Blogue de notas" da unidade curricular de Análise de Fonogramas e Eventos da Licenciatura em Música variante Produção e Tecnologias da Música, da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, do Instituto Politécnico do Porto. Um Moleskine virtual cujo tema é "O mundo da música e as músicas do mundo". Orientação do Professor Mário Azevedo

quinta-feira, junho 7

A música ocidental na Idade Média - Final

As comparações entre músicas de diferentes culturas proporcionam perspectivas esclarecedoras; o que aconteceu com a música ocidental na época das Cruzadas foi fundamental. Não foi nada menos do que a criação da polifonia, música para mais de uma parte ou voz, que levaria inexoravelmente à criação da harmonia e intensificaria a necessidade de um sistema de notação adequado. Talvez essa evolução esteja ligada à necessidade de se fazer ouvir individualmente e não como uma massa, ou à descoberta de que os interiores de pedra das igrejas amplificavam a voz e lhe davam mais ressonância. A mudança começou imperceptivelmente, de início, com as vozes em uníssono na oitava, acomodando diferentes faixas de baixo e tenor, de contralto e soprano. Depois, era acrescentada uma terceira voz, cantando no intervalo de uma quinta acima da voz mais grave. Com certeza isto era mais do que mera conveniência. A harmonia aberta simples tinha uma clareza austera, penetrante, como os harmónicos ressonantes dos monges tibetanos. Não foi tão grande o salto dessa harmonia simples para a ideia de começar em uníssono, separando-se da quarta ou quinta, e voltando a se juntar. E ainda assim o processo levou cerca de duzentos anos. A prática era conhecida como Organum, um termo extraído do latim, significando todo o corpo de recursos para fazer música - instrumentos e vozes. Parece provável que algumas dessas ideias tenham sido extraídas da música popular. De início, o Organum foi uma prática improvisada e o Cantochão ainda era ensinado como uma única linha. Foi precisamente por essa época que houve o cisma da Igreja Católica: a Ortodoxa Oriental, com base em Constantinopla, e a Católica Romana, em Roma. A tendência para a divisão há muito tempo se fazia clara, e quando a separação realmente ocorreu, em 1054, a Igreja Ortodoxa Oriental manteve a prática do Cantochão uníssono.

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segunda-feira, junho 4

A música ocidental na Idade Média - IV

Os Trovadores são grupos de poetas-músicos que floresceu no sul da França, na Provença, no começo do séc. XII. Acredita-se que os trovadores podem ter calcado seus versos líricos em obras de poetas árabes da Espanha e de clássicos romanos como Ovídeo. Tanto a música secular, como os longos poemas épicos do século XI, as canções de gesta (canções sobre feitos de uma pessoa histórica ou lendária), as cantigas das Cruzadas (a partir 1096) e as cantigas dos trovadores parecem todas monodias - composições poéticas sem acompanhamento musical. Não se tem conhecimento de qualquer música para canções de gesta, mas documentos antigos levam a pensar que os versos eram todos cantados no mesmo tom e que alguns tons já poderiam ter existido nas melodias litúrgicas. Por vezes, devem ter sido acompanhadas por algum instrumento. A música, como as mercadorias e novas ideias de todos tipos, percorreu as principais rotas comerciais; mercadorias e maneiras vieram da Itália à França passando pela Alemanha; a música secular dos trovadores foi em direcção oposta, aclimatando-se lentamente aos costumes alemães, assim como percorreu também a rota dos cruzados. A maioria desses poemas celebrava os feitos de Carlos Magno e outros heróis. Muitos estudiosos acreditam que os monges escreveram a maior parte das canções de gesta para glorificar os fundadores dos seus mosteiros. As canções de gesta constituíram um ciclo de poemas, dos quais A Canção de Rolando é o mais famoso. Um segundo grupo de poemas - romances da corte - desenvolveu-se juntamente com as canções de gesta. Tratavam de temas de amor, de magia e cavalaria. Chrétien de Troyes, que escreveu aproximadamente de 1160 a 1190, é o mais conhecido dos autores de romances cortesãos. Ele tentou combinar os ideais guerreiros das canções de gesta com uma nova atitude romântica em relação à mulher. Frequentemente, baseou-se nas lendas do rei Artur. O poema narrativo mais importante da literatura francesa da Idade Média é o Romance da Rosa, uma alegoria em duas partes. Guillaume de Lorris, que viveu no início do séc. XIII, escreveu a primeira parte antes de 1250, e Jean Meung (1250-1305) escreveu a segunda parte provavelmente 50 anos mais tarde. A primeira parte constitui um manual do amor cortesão. A segunda parte ataca os males sociais da época. O Romance da Rosa deu início a um tipo de filosofia moral que reapareceu mais tarde nas obras de Rabelais, Molière e Voltaire.
As canções de amor eram as mais importantes entre as ricas e variadas formas poéticas usadas pelos trovadores. Nelas, o poeta imaginava a dama de seus sonhos como um modelo de virtude, e dedicava seu talento a cantar-lhe as qualidades. O ideal amoroso dos trovadores e o enaltecimento das mulheres influenciaram muitos escritores posteriores, entre os quais Dante e Petrarca.
A literatura romântica criou de um trovador modesto (cuja língua era o provençal, a langue d'oc) e de seu colega, o trouvère (trovador do Norte da França, que compunha em langue d'oeuil), cantando suas trovas acompanhadas por um alaúde ou instrumento semelhante. A evidência histórica não confirma esta ideia. A trova que Ricardo, Coração de Leão, ele próprio um trouvère, compôs no cativeiro em Dürnstein mostra que a Arte de Trovar era uma vocação aristocrática. Um trovador particularmente famoso foi Bernard de Vendadorn, que Eleanor de Aquitânia levou consigo para Inglaterra quando se tornou mulher de Henrique II e mãe de Ricardo, Coração de Leão.
Na Alemanha, por volta de 1180, os trovadores designavam-se a si próprios Minneesänger - ou seja, cantores do amor - mas do amor cortês, separado do amor físico. Suas trovas sobreviveram graças à sua expressão melodiosa (muitas vezes inspirada na dos trovadores). De grande importância para difusão das actividades dos trovadores, sendo ele mesmo um deles, foi Afonso X, O Sábio ou Alfonso, El Sabio, rei de Castela (Toledo 1221 - Sevilha 1284). Foi imperador germânico (1267- 1272). Notável pelo incentivo aos empreendimentos culturais. Escreveu em galaico-português cerca de 30 cantigas inseridas nos cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional; são na maioria, poemas satíricos de conteúdo moral e político. Os quatrocentos e vinte poemas musicados que escreveu, denominados Cantigas de Santa Maria, chegaram-nos em dois códices, um do Escurial e outro de Florença, ambos com belas iluminuras.

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segunda-feira, maio 28

A música ocidental na Idade Média - II

A notação musical foi desenvolvida perto do ano 600 d.C.. O Papa Gregório, o grande, determinou que fossem sistematizadas as variações da escala, ou modo musical, habitualmente usadas na música litúrgica cristã. Identificou-as utilizando as letras do alfabeto, como ainda hoje é feita com a notação moderna das pautas, e deu-lhes um nome a partir de designações gregas antigas já ligadas à diferentes escalas. Estas ficaram conhecidas como modos gregorianos e sobrevivem no cantochão sagrado católico romano. O serviço religioso católico, as completas e as missas solenes realizadas para celebrações da Igreja têm muito do cantochão gregoriano.
Com o decorrer do tempo, os compositores acharam os simples modos gregorianos muito pouco elaborados, desprezando-os por vezes em proveito das escalas diatónicas, formadas por tons e semitons. Agora os tons podiam ser registrados utilizando-se letras, embora nem sempre fosse óbvio se o intervalo de uma para a outra era ascendente ou descendente, sem mencionar o facto de algumas notas terem de ser cantadas mais rapidamente que outras.Alguns músicos, tentando fornecer um máximo de informações acerca da escrita musical, utilizaram sinais de acentuação e letras para identificar a nota de maior duração.

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quarta-feira, maio 23

A música ocidental na Idade Média - I

O cristianismo surgiu como um desenvolvimento do judaísmo. Consequentemente a sua música tem raízes no canto judaico, mas também na música da Grécia clássica que foi assimilada pelo Império Romano.
Quando o imperador Constantino proclamou o cristianismo como religião oficial do Império Romano, no ano 325 d.C., a música litúrgica também foi influenciada por dialectos locais onde a nova fé criava raízes, incorporando elementos de origem tradicional, sagrados e profanos. Não decorreu muito tempo até existirem inúmeras variantes da música de culto cristã.
O Ritual Ambrosiano (chamado depois de Santo Ambrósio, viveu no século IV), que ainda é praticado no Norte da Itália, deu a outros rituais o princípio das antífonas, que são um cantochão entoado sob a forma de responsos, a dois coros, ainda hoje chamados decani e cantoris, nas catedrais e igrejas. Na França havia o Rito Gaulês; na Espanha, a música litúrgica era dominada desde os primórdios do século VIII pelos mouros-cristãos, e em Constantinopla florescia o Ritual Bizantino.

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quinta-feira, maio 10

Grupos de Musica Antiga III - Ensemble Micrologus

O grupo italiano Ensemble Micrologus dedica-se à música vocal e instrumental da época medieval. O seu repertório inclui tanto música religiosa como profana, que vai desde o século XII até ao século XVI.
Fundado em 1984, o Ensemble Micrologus é composto por Patricia Bovi, Adolfo Broegg, Goffredo Degli Esposti, Ulrich Pfeifer e Grabriele Russo. Todos os seus componentes tinham já vários anos de experiência em música medieva, devido à participação em festas medievais na cidade de Assis, Umbria, Itália.
O Ensemble Micrologus recebeu vários prémios, entre eles o “Diapason d’Or” em 1996 e 1999.

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domingo, maio 6

Grupos de Musica Antiga II – Alla Francesca

O grupo francês de musica antiga Alla Francesca foi fundado em 1989. Inicialmente era dirigido por Pierre Hamon e por Brigitte Lesne, no entanto, esta última abandonou o projecto em 2002. No grupo colabora ainda Emmanuel Bonnardot.
O grupo Alla Francesca é especializado em música medieval e renascentista, que vai desde o repertório dos trovadores de finais do século XI até à polifonia do séculoi XV. Este grupo colabora com o Centre de Musique Médiévale de Paris onde realizam actividades de investigação e ensino.
Os Alla Francesca receberam vários prémios donde se destaca o "Diapason d’or”, em 2000.

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quarta-feira, maio 2

Grupos de Musica Antiga I - Discantus

Discantus é um grupo vocal francês que interpreta musica medieval. Fundado no inicio da década de 1990, é dirigido por Brigitte Lesne, sendo composto, habitualmente, por cinco ou dez vozes femininas, cantando a capella.
O repertório de Discantus é predominantemente religioso, abarcando os primeiros manuscritos gregorianos, de finais do século IX, até ao começo do Renascimento. O destaque nas suas interpretações gregorianas, da musica da ars antiqua, vai para a École de Saint-Martial de Limoges e o Codex Clixtinus.
Catherine Sergent, Lucie Jolivet, Hélène Decarpignies, Anne Guidet, Anne Delafosse-Quentin, Brigitte Le Baron, Caroline Magalhaes, Catherine Schroeder, Christel Boiron, Emmanuelle Gal, Nicole Jolliet, Kyung Hee Han, Anne Marteyn e Birute Liuoryte, foram algumas das artistas que colaboraram com o grupo Discantus.

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